Matérias Técnicas Aspaco Portal - Matérias Técnicas: Compostagem e vermicompostagem na ovinoculturaCompostagem e vermicompostagem na ovinocultura 08/05/2006

Nívea Maria Brancacci Lopes Zeola (1) Américo Garcia da Silva Sobrinho (2) Severino Gonzaga Neto (3)
1. INTRODUÇÃO
Os resíduos animais, da agricultura e restos urbanos podem ser utilizados como fontes de matéria orgânica para a compostagem e vermicompostagem (GARCIA et al. 1995). A utilização da matéria orgânica fresca não é aconselhável, pois podem ocorrer problemas no balanceamento da concentração dos nutrientes do solo (devido a alta relação Carbono/Nitrogênio do material) e por conduzir a um excesso de componentes orgânicos tóxicos (Costa et al. 1991 citados por GARCIA et al. 1995). No caso do esterco de ovinos a relação C/N é de 32/1 (Paschoal, 1995 citado por MARTINEZ, 1998). A matéria orgânica adicionada ao solo deve estar suficientemente estável para produzir efeitos benéficos. Entre os caminhos assegurados para esta estabilidade estão a compostagem e a vermicompostagem, ambos processos biológicos aeróbios de transformação da matéria orgânica (GARCIA et al. 1995).
2. FONTES DE MATÉRIA-PRIMA
No caso da vermicompostagem, todo produto orgânico, seja de origem animal ou vegetal, bioestabilizado ou semicurado, livre de fermentação, constitui-se na fonte de matéria-prima utilizada para o enchimento dos canteiros (MARTINEZ, 1998). As minhocas desenvolvem-se bem com uma alimentação relativamente rica em nitrogênio protéico; devido a este fato elas preferem os resíduos de origem animal aos de vegetal. Porém, alimentos com teores elevados de proteína devem ser evitados por serem altamente fermentáveis no intestino da minhoca, provocando sua morte. As principais fontes de matéria orgânica utilizadas na comopostagem e vermicompostagem são o esterco animal, restos de cultura, resíduos agroindustriais, lixo domiciliar e lodo de esgoto. Todo esterco animal, notadamente os provenientes das criações de bovinos, equinos, caprinos, suínos e ovinos, constituem-se em excelente fonte de matéria-prima para a criação de minhocas, sendo indispensável que passe por um tratamento prévio (compostagem), com o objetivo de se evitar fermentações, com a produção de gases tóxicos e a elevação da temperatura na massa do canteiro, tão prejudiciais à vida das minhocas (MARTINEZ, 1998) O esterco é formado pelos excrementos sólidos e líquidos dos animais, misturados com o material fibroso usado para cama, como palhas, folhas e capins. O Quadro 1 mostra a composição média dos excrementos de algumas espécies animais.
QUADRO 1. Composição média dos excrementos sólidos e líquidos de algumas espécies animais Espécie N% P2O5% K2O% CaO% Sól. Líq. Sól. Líq. Sól. Líq. Sól. Líq. Bovino 0,57 0,95 0,21 0,03 0,16 0,95 0,34 0,01 Equino 0,50 1,20 0,30 - 0,24 1,50 0,15 0,45 Ovino 1,68 0,46 0,03 0,23 2,10 0,46 0,16 - Fonte: Thompson (1957) citado por MARTINEZ (1998)
3. PROCESSOS DE TRATAMENTO DO ESTERCO
A compostagem visa obter um produto bioestabilizado apresentando uma relação C/N próxima de 20/1. O processo em si consiste na formação de uma pilha com camadas de restos de cultura como colmos, folhas, capins, ricos em carbono, alternadas com o esterco animal, rico em nitrogênio, sendo que as camadas devem ser molhadas para facilitar a vida de microrganismos (MARTINEZ, 1998). Todo material fibroso, rico em carbono, apresenta uma relação carbono/nitrogênio (C/N) alta, de 70/1 a 90/1, o que dificulta sua decomposição pelas bactérias. Desta forma é necessária a inclusão do esterco, que é rico em nitrogênio e tem a função de baixar essa relação para níveis próximos de 30/1, ideais para o desenvolvimento das bactérias (thomsen, 2000).
A fase seguinte, da humificação ou cura do composto, continua diminuindo esta relação para níveis próximos de 10/1, havendo a mineralização da matéria orgânica, que apresenta assim as qualidades melhoradas das propriedades físicas, químicas e biológicas do solo. Para atingir esta fase, a minhoca é utilizada acelerando o processo através da ação das enzimas produzidas no seu tubo digestivo e da atividade de uma série de microrganismos nele existente, que são grandemente estimulados antes de serem excretados. O húmus, é um produto uniforme, com umidade ao redor de 45 a 50% e densidade de 0,5 a 0,6. Ao contrário, o esterco possui um composição e teor de umidade variáveis com a sua origem, não devendo estar contaminado por agrotóxicos, ervas daninhas ou terra, que podem adulterar ou condenar o produto final (MARTINEZ,1998). Assim recomenda-se que o minhocultor fiscalize as fontes fornecedoras de matéria-prima adquirindo esterco de boa procedência, para que seu produto final tenha qualidade e concorrência no mercado consumidor.
4. DESTINO DOS DEJETOS OVINOS
4.1. COMPOSTAGEM
THOMSEN (2000) em experimento para avaliar as características do estrume ovino durante período de estocagem de 86 dias obteve bons resultados, concluindo que a relação C/N diminui de 14 para 11 ao final do processo, além da mineralização da matéria orgânica através da constatação do aumento do nitrogênio inorgânico, que no início foi de 0,29 e no final 0,32% da matéria seca. Após a compostagem o esterco ovino pode ser utilizado como adubo orgânico em diferentes culturas, apresentando resultados satisfatórios em função do nível tecnológico que se deseja obter. BARDGETT et al. (1998) avaliaram a interação entre solo e microrganismos sobre pastagem corrigida com estrume seco de ovinos e concluíram que a adição do estrume em dois tipos de solo aumentou a biomassa microbiana. Estes resultados estão de acordo com os de LOVELL e JARVIS (1996) que demonstraram que a adição de estrume seco de bovinos no solo da pastagem aumentou a biomassa microbiana e sua atividade, alterando a estrutura da comunidade de microrganismos. A adubação com esterco ovino devolveu 30 a 50% do nitrogênio e todo o potássio extraído durante o pastejo (JAGLA e ADAMSKA, 1992). A adição de esterco ovino em áreas de pastagens, favorece o desenvolvimento das leguminosas. É provável que a composição do esterco ovino propicie pH do solo mais elevado (entre 5,8 a 6,5), favorecendo o desenvolvimento dessas espécies. Sendo assim, BROUWER e POWELL (1998) avaliando o impacto do estrume bovino e ovino sobre solos do oeste da África, concluíram que o estrume e a urina dos ovinos apresentam-se como fertilizantes orgânicos mais eficientes em solos ácidos que o estrume e urina de bovinos. Quando aplicou-se estrume + urina de bovinos o pH da superfície do solo aumentou para 6,28. Com a aplicação de estrume + urina de ovinos o pH elevou-se para 6.81, justificando os autores a recomendar a utilização do estrume ovino + urina em áreas de solos ácidos. JEKIC et al. (1983) constataram que a adubação de pastagem nativa, destinada a fenação, com esterco ovino, apresentou 17,2% de leguminosas, enquanto com adubo inorgânico, esse valor era em torno de 6%. A adubação com esterco ovino também propicia aumentos na produção de matéria seca, quando comparado a pastagens não adubadas. GONZALES et al. (1996) obtiveram aumentos na produção de matéria seca para o capim Buffel em torno de 150%. KANIUCSAK e GASIOR (1996) adicionando 25 ton de esterco ovino/há de campo nativo, obtiveram aumentos de 127% no rendimento do feno. Porém, IONEL et al. (1983) usando doses crescentes de esterco ovino (20 a 60 ton/há) encontraram pouco efeito no rendimento de matéria seca, mas o aumento nas doses propicou melhor desenvolvimento da alfafa. A produção de matéria seca quando se utiliza adubação inorgânica em comparação à adubação orgânica apresenta resultados contraditórios. LONGUEVAL (1986) obtiveram produção de matéria seca utilizando esterco ovino 20 a 30% superior para a gramínea Bromus catharticus, quando comparado ao adubo mineral. Já JEKIC et al. (1983), quando utilizaram esterco ovino para adubação de campo nativo, obtiveram produção de matéria seca 53% inferior, comparado ao adubo químico.
4.2. VERMICOMPOSTAGEM
O estrume ovino pode ser utilizado com grandes vantagens na produção de vermicomposto. Em minhocários experimentais, HUGHES et al. (1994) obtiveram aumento no número de minhocas após a adição de estrume ovino. Da mesma forma BAKER et al. (1996) com a utilização do estrume ovino aumentaram o estabelecimento de minhocas da espécie Aporrectodea longa. O vermicomposto obtido a partir do estrume ovino propiciou nutrientes em quantidades adequadas para adubação de flores, com exceção do nitrogênio (HANDRECK, 1986). A adição de resíduos industriais do algodão na produção de vermicomposto a base de estrume ovino propiciou um produto de boa qualidade como fertilizante, minimizando a poluição causada por esses resíduos (ALBANELL et al. 1988 citados por MARTINEZ, 1998). O Quadro 2 mostra as transformações ocorridas durante o processo de vermicompostagem.
QUADRO 2. Transformações químicas do esterco de minhoca (Eisenia foetida) durante a vermicompostagem de esterco ovino misturado com resíduos da industrialização do algodão (relação 3:1), expresso em porcentagem do peso seco Tempo (semanas) Parâmetros 2 4 6 8 10 12 pH 8,7 8,6 8,5 8,5 8,0 7,7 Matéria seca 31,1 39,9 45,9 48,8 49,2 50,5 Ácido húmico 12,2 11,8 12,5 14,7 15,7 18,9 N - total 2,06 1,93 1,89 2,01 1,56 1,71 C/N 11,4 10,7 9,8 9,8 9,2 9,1 P 2,75 3,20 3,29 3,47 3,52 4,31 K 0,68 0,63 0,75 0,81 0,90 0,96 Na 0,08 0,10 0,12 0,13 0,12 0,13 Fonte: adaptado de Albanell et al. (1988) citados por MARTINEZ (1998)
Os autores descreveram que os valores de pH do vermicomposto decresceram, tendendo a neutralidade devido ao CO2 e aos ácidos orgânicos produzidos pelo metabolismo dos microrganismos. O total de ácido húmico aumentou, comprovando que as minhocas incrementam a transformação das substâncias orgânicas em compostos húmicos estáveis. A alta humificação do vermicomposto reflete um decréscimo da relação C/N. O aumento em nutrientes minerais (P, K e Na) indicam que as minhocas aceleram a mineralização da matéria orgânica. Com relação ao decréscimo no teor de nitrogênio total os autores citam a volatilização de amônia devida aos valores de pH e/ou do nitrogênio absorvido pela biomassa das minhocas. GARCIA et al. (1995) em estudo para avaliar a utilização do esterco ovino para a vermicompostagem encontrou resultados satisfatórios, os quais estão descritos no Quadro 3.
QUADRO 3. Características do esterco ovino e do vermicomposto
Características Parâmetros Esterco ovino Vermicomposto Cinzas(g/kg MS) 349 542 pH 8,8 7,6 N - total (g/kg MS) 31,1 29,7 C/N 10,1 7,44 Fonte: Adaptado de GARCIA et al. (1995)
MANGRICH et al. (2000) em experimento utilizando esterco de ovelhas para processo de compostagem e posterior vermicompostagem com a utilização da minhoca Eisenia foetida, indicaram a possibilidade de preparação do vermicomposto para a correção de problemas de solos degradados. DOUBE et al. (1997) avaliando a preferência alimentar das minhocas concluíram que todas as espécies analisadas (Aporrectodea caliginosa, A. longa, Lumbricus rubellus, L. terrestris) mostraram preferência por solo mineral puro em relação à matéria orgânica pura. Porém, para misturas de solo + matéria orgânica os autores afirmaram que a espécie A. longa mostrou preferência em terceiro lugar por uma mistura de solo + estrume ovino e bovino, já as espécies L. rubellus e L. terrestris mostraram preferência em segundo lugar para uma mistura de solo + estrume ovino.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A deposição de estrume ovino no solo é importante para proporcionar substrato adicional ao crescimento de microrganismos e seu metabolismo, permitindo a disponibilidade de nutrientes para melhorar as características do solo (BARDGETT et al. 1998). Além destes fatores, mais recentemente com a preocupação ambiental, o estrume e a urina dos ovinos estão sendo tratados para posterior utilização, evitando a contaminação de córregos ou riachos (BERGE, 1997). Assim, a compostagem e a vermicompostagem tornam-se formas alternativas para intensificar a produção agropecuária, fornecendo características apreciáveis ao solo e evitando a contaminação do meio ambiente.
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